O portal realmente se encontrava muito próximo à entrada da Abadia de Glast Heim. A cidade continuava a mesma aos olhos dos guerreiros. Suja, escura como se fosse noite eterna, e com o ar carregado de sons e sussurros indecifráveis. O grupo demonstrou logo que chegou ser bastante coeso nas ações, indo para posições que ela sequer precisou indicar a cada um, assim que entraram pelas pesadas portas de madeira da Abadia.

Miadra seguia à frente, andando com cautela, seguida por Alice, que constantemente a provia das graças divinas a que tinha acesso como sacerdotisa de suporte, seguida de perto pelo Justiceiro, que segurava sua enorme arma de fogo presa às costas, com uma moeda em sua mão, mas olhando sempre à sua volta. Aisha, como a maioria das pessoas, não sabia o que um Justiceiro podia fazer, mas sabia que eles eram excelente combatentes, rivalizando com caçadores em poder de fogo a distância. E, como não conhecia armas de fogo, não sabia dizer se ele estava realmente pronto para a ação. Mas ele parecia atento. Um pouco atrás deste seguia Elizabetti, dando suas graças ao Justiceiro, à Kurai, que flanqueava o grupo à direita, e a Aisha, que flanqueava à esquerda, cada uma com seu falcão já em vôo na Abadia, procurando os alvos para suas mestras. Todos seguiam em silêncio, exceto quando era necessário invocar os poderes de cada um.

A Abadia era escura, iluminada por uma luz etérea que vinha do céu nos grandes buracos no teto da Abadia. O cheiro da morte impregnava as narinas dos aventureiros, e as enormes pedras vermelho-escuro que ainda estavam de pé e davam forma à Abadia não ajudavam a amenizar o clima. O chão estava todo quebrado, mas era possível ver que certamente fora ricamente adornado. Logo que saíram do corredor de entrada da Abadia, viram a enorme nave, que era visivelmente maior que a Catedral inteira de Prontera. Os bancos da nave estavam revirados e quebrados, e havia nas laterais da nave uma saída para cada lado da enorme construção, dando para áreas mais internas. Para a direita era possível chegar ao Cemitério de Glast Heim, onde de tempos em tempos aparecia um enorme e perigosíssimo monstro, o Senhor das Sombras. Era um monstro com poder comparável ao de um arquimago de alto nível, e era acompanhado de um séquito de Ilusões dele mesmo com poder comparável a bruxos. Era uma criatura poderosa demais para o grupo que ali se aventurava, mas não era esse seu objetivo. Precisavam revirar a nave da Abadia para procurar alguma pista, algum vestígio do que havia sido relatado pelo noviço.

Adentrando mais a nave, Kurai notou que alguns dos enormes bancos estavam não apenas quebrados, mas aparentemente esmagados, e chamou a atenção de Aisha, que averiguava os bancos do lado esquerdo.

- Aisha, creio que estes bancos sofreram um ataque de grande poder de pressão. Talvez até calor, pela forma que estão manchados os ladrilhos embaixo deles. - sussurrou a caçadora.

Aisha abaixou-se ao lado de Kurai, examinando os relatos e confirmando que Kurai provavelmente tinha razão. Aisha invocou o poder de Atiradores de Elite da Visão Real, para aumentar seus sentidos e corpo a limites sobre-humanos, e analisava cuidadosamente o local quando ouviu passos arrastados vindos do lado esquerdo e direito da nave e fez sinal para que o grupo ficasse de prontidão. Quando ia se levantar, reparou que embaixo de um dos bancos havia um pedaço de roupa de seda rasgado e preso ali, e pedaços de um broquel que precisavam ser analisados, mas não havia tempo.

Miadra viu o primeiro Druida Maligno chegando pela esquerda e correu em sua direção, jogando uma pedra encontrada no chão com o intuito de cegá-lo ou atordoá-lo. O Druida sentiu o ataque, mas não se abalou. Suas vestes sombrias e rasgadas vagamente avermelhadas ornavam com seu visual de carne apodrecida e seu livro negro que carregava aberto em sua frente. Atrás dele seguiam dois cadáveres animados, Carniçais que se arrastavam na direção do grupo. Quando Miadra chegou perto do Druida, começou a atacá-lo com sua nova adaga, esquivando habilmente de seus ataques, mas os Carniçais iriam certamente atrapalhá-la. Nisso o Justiceiro pegou a moeda que estava aparentemente brincando desde que entrou na Abadia e disparou com um veloz movimento de sua mão na direção do primeiro Carniçal, que automaticamente cambaleou para trás com a força do impacto, enquanto o outro se virou para encarar o Justiceiro. Antes que qualquer um pudesse prever, o Justiceiro puxou duas pistolas que estavam escondidas sobre seu casaco e começou a disparar repetidamente no Carniçal que avançava em sua direção, em uma velocidade impressionante.

Enquanto isso, Kurai se levantou e começou a disparar rapidamente flechas no Druida que se aproximava da direita, e se movendo constantemente para evitar os ataques dele, enquanto seu falcão atacava furiosamente o rosto do monstro, o atrapalhando e ferindo. Aisha se levantou e carregou uma flecha de prata em seu arco, retesando o máximo possível a corda de seu Gakkung, e disparou uma flecha que atravessou o Druida e acertou em cheio os dois Carniçais que o acompanhava, causando danos devastadores nos três monstros. Em seguida apontou apenas para um dos Carniçais e começou a disparar flechas no Druida, quando seu falcão mergulhou do céu e chocou-se com o Carniçal apontado por sua mestra com tamanha força que o chão pareceu tremer, enquanto o monstro se tornava uma massa disforme de carne morta frente ao ataque do falcão. Kurai disparava agora duas flechas por vez, com violência contra o Druida, enquanto Aisha carregava o segundo Disparo Certeiro, que pegaria o Druida e o segundo Carniçal.

As sacerdotisas ficavam atentas a todos os movimentos, curando e provendo de bênçãos os guerreiros, impressionadas com a velocidade com que os monstros eram derrotados pelos guerreiros. No momento que as arqueiras derrotavam o Druida e viraram para se livrar do último Druida, que estava em embate com Miadra, viram que além dos dois carniçais terem sido mortos pelos ataques das pistolas do Justiceiro, este começava a atirar no Druida que estava com Miadra. Ele possuia uma mira comparável à delas, e nenhum tiro passava perto o suficiente de Miadra para distraí-la, e todos os tiros iam diretamente para o Druida Maligno, que tentava agora conjurar alguma magia no grupo, mas não podia pelos ataque incessantes de Miadra e do Justiceiro, que gritou para Miadra se afastar e disparou, de repente, rajadas poderosas com as pistolas, que ecoavam como trovões com rajadas de tiros que ele agora dava ferozmente, derrotando de vez o Druida.

- Bom, acho que agora acordamos todos os mortos. - falou Miadra – Mas, apesar de barulhento, você é bom, Error. Estou um pouco surda, mas impressionada!

- Obrigado, mas devo alertá-las que minhas pistolas são bem mais silenciosas que a metralhadora. Mas garanto que a utilidade dela compensa o barulho que farei.

- Muito bom, amigos. Mesmo. Agora me dêem cobertura que acho que encontrei indícios interessantes aqui no local que Kurai indicou. - disse Aisha, como que para evitar a conversa em um local tão perigoso quanto aquele.

Aisha abaixou-se de novo com Kurai, e pegou o pedaço das vestes de seja que encontrou ali e, cheirando e analisando o tecido, chegaram à conclusão que era das vestes de Elenna, e que o broquel possivelmente era o que ela ou o Dorei estariam usando, e que fora quebrado. Miadra pegou estes indícios e guardou em sua bolsa, para analisarem mais tarde, em Prontera. Nisso Eliza falou, levantando um ursinho de pelúcia que achou no chão:

- Nossa, que ursinho mais fofo! Como isso veio parar aqui, e parece tão novinho.

- É do carrinho de Dorei – exclamou Miadra. - Foi a Elenna que colocou esse ursinho para enfeitar o carrinho dele. Deixe que eu guardo comigo, sacerdotisa!

Nisso ouviram um som que parecia de um véu dançando no ar, e sussurros com uma voz macabra vindos do fundo da nave, detrás de um grande órgão quebrado. No que se viraram para lá, firam um enorme monstro que flutuava de braços abertos em cima de uma sombra que formava um pentagrama de energia, que levantou o braço e fez cair uma poderosa rajada elétrica em Miadra, que estava mais próxima a ele, derrubando-na morta instantaneamente.