Deixemos agora um pouco de lado esta história, pois ainda há muito a ser contado além deste pequeno grupo de amigos.

Muito se engana quem acha que as únicas criaturas inteligentes e sociais são os homens. Existem outras espécies organizadas espalhadas pelo mundo, e certamente uma que merece atenção são os orcs.

Os orcs são uma raça muito forte, com o desenvolvimento físico médio acima dos humanos, mas sem sua criatividade e inteligência, São organizados em agrupamentos, constituem famílias mais ou menos organizadas, mas algo que precisa ser falado sobre eles é seu poder bélico. Todos são guerreiros. Sem exceção. Se um humano desavisado não prestar atenção, até mesmo uma criança orc pode ser perigosa, já que até elas andam armadas com adagas.

Orcs são ótimos arqueiros, ótimos espadachins, embora mais pela sua força do que pela habilidade em si, e geralmente não gostam de humanos. Qualquer orc atacará qualquer humano quando encontrar um, como se este fosse o maior inimigo existente.

E era com um destes orcs, armados com um grande escudo de madeira e metal em um braço e uma afiada espada na outra que Miadra estava lutando. Aliás, dizer que eles lutavam seria uma ofensa a garota que corria ao redor do orc guerreiro, brincando com este como um gato brinca com um roedor antes de matá-lo.

De repente a bela ruiva desapareceu na frente do orc, deixando um traço de terra onde ela estava há um instante atrás. O guerreiro orc urrou de raiva ao ver sua presa sumindo, mas logo este urro se tornou um grito de dor e, então, silenciou-se.

Assim que tombou, foi possível ver a garota limpando sua adaga nos trapos que o orc vestia.

- Otário! Acha mesmo que seu escudo poderia te proteger do que você não pode ver? - falou ao corpo inerte a seus pés. - Agora vamos ver o que você tem pra mim.

Miadra abaixou-se e encontrou um dos amuletos que os orcs carregavam sempre consigo e pensou "ótimo, mais um pra coleção", enquanto o guardava em sua bolsa.

- Nada mau, ruivinha, mas precisa se esforçar mais ainda para me alcançar. - disse uma voz atrás dela de forma suave, mas brincalhona.

- Dorobou, criatura infernal! Ainda me assediando? - respondeu Miadra, puxando a adaga de novo e apontando para o rosto do seu colega de profissão. - Não me incomode, que eu estou ocupada agora. Vai lá flertar com a sua alquimistinha. Ou já foi rejeitada por ela também?

- Há, sua ciumenta! Você acha que ela me dispensaria assim? O fato de eu cobrar para caçar os itens que ela quer não a fez desistir de meu charme. - respondeu com um sorriso o arruaceiro, apoiando seu arco no chão. - Aceita uma poção? Um mago… hmm… deixou cair ali atrás.

- Cair? Sei, sei. - respondeu Miadra guardando sua adaga e ajeitando seu broquel no braço canhoto. - Mande pra cá que estou com sede mesmo.

Os arruaceiros se sentaram na grama, num canto da vila orc e começaram a beber algumas poções para recuperar um pouco do fôlego e curar algumas feridas dos combates com os orcs.

- Ruiva, fique esperta que eu vi um grupo de orcs azuis passeando por aí. Acho que estão patrulhando a área.

- Está com medo agora, é, ruivinho? – dando uma ênfase meio cômica ao final da frase.

- Bom, não fui eu que fiquei tonto levando com um escudo na cabeça agora a pouco, ruiva. Em todo caso, pode se divertir que eu fico de olho neles.

Quando ia se levantar, uma mão firme e enluvada segurou-o pelo ombro e falou, com uma voz firme e tranqüila.

- Não há necessidade de se preocupar com eles, caro Dorobou.

Apesar da firmeza da voz, ela era feminina. Dorobou virou-se, então, e viu contra o sol o vulto de uma templária, puxando seu Grand Peco pela rédea ao seu lado. Em suas costas estava o enorme escudo que sempre carregada consigo, e a sua fiel espada em sua cintura.

- Ora ora, se não é minha odalisca favorita! – exclamou Dorobou, levantando-se e ficando em frente à garota que trajava a forte e pesada armadura dos templários da Igreja de Prontera, que agora tirava seu enome elmo dourado e o apoiava na mão livre.

- Você sabe muito bem que abandonei esta vida leviana, Dorobou. Minha vida agora tem outro objetivo que entreter homens sedentos e cheios de Zenys. Mas é sempre um prazer encontrar amigos em terras estranhas. Há muito não piso neste lugar. – respondeu Katrina, com um sorriso no rosto.

- Bom te ver bem, Kat! – falou Miadra, que havia se levantado logo após Dorobou. – Estou aqui cuidando deste arruaceiro infeliz, porque ele está com medinho de orcs azuis.

- Noto que a chama que existe em vocês dois não diminuiu, prima. Fico feliz, pois passei muito tempo em terras infestadas de demônios e mortos-vivos, e a companhia de pessoas tão felizes sempre me agrada. Compartilham comigo um lanche? Preciso descansar, assim como minha montaria.

- Sente-se em meu lugar, milady – respondeu imediatamente Dorobou, pegando Katrina pela mão e levando-na a um tronco cortado de madeira para ser usado de banco. – Noto que, além de desistir da música, desistiu daquele elmo horrível e surrado.

- Cobiça ainda é um pecado, Dorobou. Mas de fato, este elmo foi um presente da Igreja por meus serviços nas cidades tomadas pelo desespero. É realmente algo invejável, não o culpo pelo olhar que deu a ele, mas peço que nem pense que ele vale algum dinheiro pra você.

- Prima, você ganhou mesmo um Elmo do Deus-Sol? – disse Myadra com os olhos grandes como duas frutas maduras, totalmente embasbacada.

- Certamente, cara prima. Mas não vim aqui para mostrar meus presentes, mas para ver como estão meus amigos, e visitar velhos adversários que não vejo há muito tempo – disse, olhando para o acampamento orc que aparecia no horizonte. – Ainda tenho contas a acertar com certos indivíduos. Inclusive,Dorobou, aqueles orcs que estão patrulhando são meus, certo?

- Longe de mim ficar entre vosso caminho e sua presa, nobre e maravilhosa serva de Odin – disse Dorobou, fazendo uma mesura exagerada. – Assim sendo, sentemos e vamos voltar a comer, junto de nossa mais estimada companhia, ruiva!

Assim, os 3 começaram a comer frutas e um pouco de vinho, que Katrina tirou dos bolsos de sua montaria, enquanto seu Grand Peco começou a caçar vermes e outras criaturas pelo chão gramado que tinha à sua frente, mas sempre perto de sua dona.

E, no momento que estavam terminando, surgiu rapidamente um grupo de orcs, visivelmente prontos para emboscar. Dorobou e Myadra perceberam a aproximação do grupo momentos antes do ataque dos arqueiros começar, gritaram cuidado e desapareceram da vista do grupo, cada um em uma nuvem de poeira. Katrina levantou-se e virou-se para o grupo que chegava, ignorando que as flechas agora vinham em sua direção.

Rapidamente puxou seu enorme escudo das costas e o travou em seu braço esquerdo, enquanto desembainhava sua enorme espada com a mão direita, bloqueando no caminho os ataques de um dos orcs guerreiros que a cercavam.

- Ataques covardes sempre foram a característica de criaturas estúpidas como estas. – disse em voz baixa, mais pra si mesmo do que para quem estivesse por perto. Em seguida, disse em voz alta - Mya, Dorobou, sirvam-se dos arqueiros, se assim quiserem!!

Myadra e Dorobou apareceram atrás de cada um dos arqueiros, com uma nuvem de poeira e pedras que cegou seus alvos, deixando-os momentaneamente sem saber para onde atirar. Aproveitando a deixa, cada um dos arruaceiros começou o combate com os arqueiros à sua maneira. Myadra movia-se rapidamente ao redor do seu orc arqueiro, deixando-o sem condições de fazer mira, e usando sua faca rápida e repetidas vezes contra aquele corpo que mais parecia ser feita de pedra. Já Dorobou aproveitou o atordoamento do seu oponente para dar um ágil salto para trás e começar a disparar flechas no orc arqueiro com uma agilidade que rivalizava a de Myadra, pois esquivava das flechadas do seu oponente com a mesma facilidade com que acertava seu alvo

Katrina, enquanto isso, havia conseguido afastar os 2 orcs guerreiros que pularam nela, e colocou rapidamente seu elmo dourado. Imediatamente, bateu seu escudo no chão e estava pronta. Começou a bloquear os ataques que vinham incessantemente por parte dos 2 guerreiros, e revidar com espadadas diretamente neles, que ora bloqueavam ora sentiam o ataque. Foi quando surgiram mais 4 orcs, mas desta vez enormes, tão altos quanto Katrina quando em sua montaria. Eram orcs azuis, e Katrina viu que estava em desvantagem para uma luta corpo-a-corpo. Certificando-se rapidamente que seus companheiros estavam lutando com seus adversários sem problemas, Katrina inverteu a espada em sua mão, enterrando-na com força na terra a seus pés, enquanto se agachava ante o ataque furioso dos orcs e invocou seu poder divino.

Foi quase como uma ordem divina quando Katrina invocou a enorme cruz feita de luz a seus pés. A luz surgiu diretamente do ponto que a espada se enterrou e formou uma enorme cruz centrada na templária, cegando instantaneamente seus atacantes, que urraram de dor no momento que o poder de Odin, em formato desta cruz, era canalizado pela templária diretamente para seus oponentes. Mesmo os arruaceiros, que estavam ocupados com seus oponentes ficaram momentaneamente atordoados com a luz emitida. E foi neste momento que os orcs arqueiros conseguiram acertar seus oponentes.

Katrina permaneceu ajoelhada logo após o momento que parecia uma eternidade de dor e glória. O poder que possuía não era gratuito, havia um preço a se pagar para poder canalizar tal poder. Enquanto via seus 6 oponentes caindo seus pés, Katrina viu seus amigos sendo atacados. Enquanto se levantava, pode ver o arqueiro que duelava com Dorobou tombar ante ao duplo ataque de Dorobou, cravando duas flechas de uma vez em seu coração, e o adversário de Myadra tombando frente a garota, que estancava uma ferida feita por uma flecha do seu adversário orc.

Invocando o poder aprendido na Igreja, Katrina pode fazer pelo seus amigos o que sua prima mais querida havia feito por ela naquele mesmo lugar, e invocou o poder divino de cura para cicatrizar os ferimentos de seus amigos, e também para recuperar um pouco de seu esgotamento físico causado pelos ataque e pelo poder recém utilizado.

- Prima, você está bem? – perguntou Myadra, parando em frente à templária, que permanecia sorridente apesar do ataque.

- Poderia estar melhor, se estes orcs malditos não tivessem estragado nosso lanche! Mas tudo bem, foi a ultima vez que eles fizeram isso com alguém. – disse Katrina, olhando com algum desdém o corpo dos orcs que jaziam em cima do lanche que estavam fazendo.

- Isso é que eu chamo de gostar do trabalho, odalisca. Acho que você tem razão quando diz que escolheu a vida certa abandonando a dança. Embora certamente você fique muito melhor com sua roupa de dançarina do que com esta enorme armadura que veste agora. – disse Dorobou, prendendo novamente seu arco em suas costas. – Agora, vamos ver o que estes corpos têm de bom…

Enquanto Dorobou abaixava-se para vasculhar os corpos dos orcs, as garotas começaram a arrumar seus pertences.

- Kat, estamos indo para Prontera agora, precisamos levar algumas coisas pra Gabi, e também vender nossas mercadorias. – disse Myadra, enquanto terminava de limpar suas adagas e guardá-las.

- Então vamos juntos, se quiserem minha companhia. Posso voltar depois para esta vila. Há muito quero reencontrar meus familiares e meus amigos. E preciso também ir à Igreja. Tenho muito o que conversar com os padres.

Assim, começaram a seguir para leste, logo após Dorobou juntar os pertences dos orcs aos seus. No caminho, Dorobou e Myadra disputavam a atenção de Katrina mostrando seus achados, contando histórias e relatando os últimos acontecimentos.